Writing letters on my wall

Tema Único: "O amor é cego"

2004-05-10
Quando o viu pela primeira vez, há muito, muito tempo, ela o descreveu – através de suas peculiares comparações infantis – como uma palavra grifada em marca-texto no meio da multidão de sílabas desconexas. Marca-texto verde, aliás. Aqueles olhos eram esplêndidos vitrais e pontuavam, em verde, uma existência que a ela parecia magnífica.

Quando o viu pela quinta ou sexta vez, as pupilas dele também a viram. Talvez fosse mesmo pela insistência dela em vê-lo, que ele a viu. Mas ele viu. ELE viu. Viu. Viu. V-i-u. Este foi o eco da semana, o assunto no colégio, a alegria de todas as amiguinhas que acompanhavam aquele doce folguedo da idade.

Quando ela o viu de novo, provavelmente um mês depois do burburinho, do eco, da insônia, ela contemplou o verde em close, ele a um milímetro de seus lábios. A coitadinha não conseguiu ver mais nada.

Aí ela passou a vê-lo nas sextas, nos sábados e nos domingos. Aos domingos, ela chorava por saudade antecipada e ele algumas vezes tinha também os olhinhos vermelhos – talvez sono, talvez tristeza, talvez álcool.

Ela o via mesmo que de olhos fechados. Ela adorava dias nublados, quando os olhos dele ficavam azuis. Ela amava dias de sol, quando então os olhos dele ficavam translúcidos de tão verdes. O que ela mais apreciava, entretanto, eram as noites em que ele deitava no seu colo e os olhos de ambos fechavam-se devagarinho...

Alguns anos passaram e ela já o via vendo outras mulheres, mas este acontecimento ela fingia não ver – tudo para preservar o sorriso dele; a melhor de suas visões. Em mais algum tempo ela passou a vê-lo raramente: ele tinha reuniões, gravações, missas, assembléias, “horas felizes” longe de lá, longe dela.

Passou a sentir-se um cadinho mal. Procurou outro oftalmologista, contou-lhe os sintomas, as dores, a falta de cor, o olhar embaçado. O médico receitou um colírio qualquer; ela comprou um colibri.

Isso porque ela o via cor de rosa e verde, sempre. Ela via – o pouco que via – bem bonitinho. Ela via a vida romanceada até o dia em que descobriu outro dos seus sentidos: a audição.

Ela via tudo nele com tanta compreensão, ela o via todo, todavia ouviu verdades negras de alguém e saiu como soldado baleado, cambaleando, visão turva, na cabeça histórias de traições, mentiras, desonestidades.

Encontrou-o dormindo. Ela sentia-se plena quando o via dormindo. Ele era justo quando dormia. Ele era bom quando dormia. Ele era vulnerável a ela e a seu amor quando dormia. Tirou da gaveta um Super Bonder e, perpetuando seu gozo, colou aqueles olhos.

Da última vez que ela o viu, ele não a viu. Nem a ela, nem a ninguém. Nunca mais.

11:16 p.m. :: ::
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