Writing letters on my wall

A METAMORFOSE

2004-03-21
Numa certa manhã, uma barata acordou e viu que havia se transformado em mim. A barata ficou pela primeira vez confusa com tantas confusões mentais de minha existência. Sentiu-se aflita. Ao invés de asas para voar tinha agora uma imaginação que a levaria a muitos lugares, muitas vezes lugares estranhos, malucos e até bizarros. Mas sentiu também, como ser humano, que quando tombasse de costas no chão – sim, não tinha mais casco, tinha agora costas – ainda iria precisar de ajuda de companheiros(as).

A barata encontrou dificuldades em se levantar da cama. Cambaleou e caiu. Desistiu e seguiu rastejando até o banheiro onde se deparou com o espelho. Com a minha aparência se sentiu tonta. Isso era um absurdo! Como poderia um ser sentir tantas vontades e tantas impressões ao mesmo tempo? Como poderia se bombardear a si mesmo mentalmente? Antes a pobre barata adorava dar voltas em torno das lâmpadas, mas agora era muito estranho dar voltas em torno de si mesma. Sentiu vontade de voltar a ser o que era antes: a “temida” e “repugnante” barata.

Alguém bateu na porta. A barata se resguardou um pouco. Bateram de novo. Tentou dizer algo, mas saiu apenas um som gutural. Depois ouviu: “Sempre se espreguiçando e dormindo mais do que deve... Ah, desisto”.

Tentou novamente andar. Era difícil se equilibrar. Aliás, sempre foi muito difícil ser uma pessoa equilibrada, não era fácil. Conseguiu ficar de pé. Deu quatro ou cinco passos e sentiu ter pisado em algo. Havia pisado em mim. Eu tinha acordado e tinha me visto transformado em uma barata.

12:59 a.m. :: ::
prev :: next