Writing letters on my wall

Pra nunca mais

2004-02-21
Uma vez pra nunca mais

Olhou para ele e, da forma mais doce que conseguiu, disse "vem", lhe estendendo a mão. Ao ouvir isto, sentiu um arrepio correr-lhe a pele, levantando os pêlos das pernas até a nuca. Sua barriga contraía-se em choques intermitentes e seus olhos ardiam muito. Tudo isso era mais pela novidade da situação. Estava tranqüilo, nada poderia dar errado.

Levantou-se e foi para perto da moça. Percebeu que o vento mudava de direção a cada instante, o que imprimia aos cabelos dela um esvoaçar fantasmagórico. Uma grande nuvem agora instalara-se a frente do Sol, pintando de cinza toda a extensão que a vista era capaz de alcançar. O zumbido do vento era o único barulho que lhes chegava aos ouvidos, tornando tudo ainda mais parecido com um delírio.

Havia o som oco e abafado. E o mundo, visto em cores de sonho. Figurava-se ali uma forma material de delírio, e não tinha como deixar de sê-lo, visto que já o era desde a ocasião em que pensaram em tudo. Para eles, cada segundo daquela situação passava como um rolo compressor em câmera lenta.

Colocados frente a frente, beijaram-se e sentiram pela primeira vez aquele ato em sua plenitude, como nunca o haviam sentido nesses quatro anos de compromisso. Aquele era sem dúvida um dia glorioso. Ao mesmo tempo em que dariam um ao outro a prova de amor definitiva, eliminariam a busca vã que se daria até o fim de suas vidas, na qual tentariam, angustiadamente, reviver aquela sensação, aquele momento de felicidade absoluta que já estaria há muito para trás. Temiam a saudade.

Lado a lado, subiram na sacada e deram-se as mãos. Encararam-se pela última vez e com um sorriso saltaram. Seriam 14 andares até tocarem o chão.

L. C.