Writing letters on my wall

Despedida

2004-06-11
O ônus do "meeting" é o "kiss it all goodbye". Aliás, a vida resume-se ao binômio "ônus-bônus": há um preço a se pagar por conhecer gente de mente livre, coração aberto, gente que se beija e se abraça pela paz, gente que não identifica a outra por RG, filiação, registro profissional, sobrenome, cor ou time de futebol mas sim pelo sorriso, gente que mergulha pra dentro de si e que leva a vida com jeito de comercial de margarina ou plano de saúde, gente que ainda crê no "flowerpower", no "hairpower" e no "blackpower", que guarda como ideologia um universo de canções e luas, gente que fala palavrão, que conta piada, que tem história feita de mentira e de verdade, gente que ri alto.

É possível refutar a tese de que somos essencialmente gregários e viver sob prisão domiciliar ou reclusão sentimental, o que impediria uma grosa de sofrimentos. Muralhas externas, de concreto, ou internas, de indiferença, protegem, mas "desumanizam". Eu já sabia que ir pra rua, platitude das boas, é aventurar-se a esbarrar com o bonitão da cidade em abençoado momento de bom humor, é encontrar um amigo de infância com aliança no dedo e bebê no colo, ouvir uma música galanteadora dos trabalhadores da construção civil, testemunhar o amor anos 60 dos hippies da praça durante o verão de 2004, crianças com suas lancheirinhas e laços de cabelo, ambulantes oferecendo maravilhas da tecnologia japonesa por preço de mercadoria paraguaia, um jovem de olhos azuis engolindo fogo no sinal vermelho, um festival de pequenas delicadezas. Além do quintal, há tanta coisa bonita que passa aos olhos na velocidade de um flash, dissipando-se na retina pra nunca mais, rostos anônimos e suas camisas coloridas que enchem o dia de brilho e se vão, sem deixar número de telefone.

E numa dessas, sai do meu quintal, segui a estrada de pedras amarelas e cheguei à Paraíba. Risco muito maior. Um turbilhão de sentimentos passaram por mim, uma centena de planos, de amores, de gente que eu queria engolir e guardar pra sempre como células minhas. Gente como a "gente" que descrevi acima. Gente linda demais que agora, por necessidade de ir um pouco além do quintal, da vila, da rua de casa, precisa embarcar no coletivo e, pelo coletivo, fazer mais. MInha MIla é uma dessas, MInha flor, menina que eu aprendi a amar como se tivéssemos dividido os brinquedos, o peito da mãe, a briga na escola. Ela e grande parte da "turminha", para qual eu entrei quando corri o tal risco da exposição num domingo qualquer de chat via internet, estão arcando com o ônus da despedida, porque essa sempre há, seja definitiva ou não - o que é o caso.

A alegria de tê-los conhecido afasta e supera qualquer tristeza pela despedida e o que deve nos acalmar, o que ao menos a mim serve de acalento, é justo saber que embarcamos no coletivo, que embarcamos juntos, que trabalharemos pensando nas férias de fim de ano, que seremos comadres e compadres uns dos outros, que cada cabeça terá um monte de causos adocicados a ser narrado para a pequena platéia de filhos e netos, que pediremos longa vida aos blogs de boa vontade e nisso ninguém nos compreenderá, que lembrando de Fernando Antonio nos riremos - e todos pensarão que estamos rindo sozinhos, talvez até tomem isso como indicador de alguma doença da idade, mas nós saberemos que não rimos ou choramos sozinhos, não nós, nunca mais.

E em nossa despedida, nenhum pedido a não ser a promessa de nos acarinharmos sempre, mesmo que de longe.

11:00 p.m. :: ::
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