Writing letters on my wall

Tema Único em Farrapos

2004-03-09
Desculpas esfarrapadas é o tema universal desta terça-feira. Eu tenho “material” para compor uma tese, uma seita, uma linha de pensamento sobre isso. Alguém poderia valer-se da ficção para contar uma história envolvendo uma mentira bem mentirosa, uma desculpa mal desculpada. Alguém poderia lembrar-se de uma novela, uma piada; eu tenho meu próprio passado como base de dados.

Um dia eu abro a caixa de e-mails do cidadão. Sim, podem dizer que foi falta de ética, que foi amoral, ilegal, absurdo. Eu confesso que abri, eu confesso que li – afinal eu tinha a senha e namorávamos há tanto tempo que eu não supunha haver coisa sobre aquele homem que eu desconhecesse.

Abri o e-mail e me deparo com uma mensagem de uma criatura feminina que eu conhecia assim, digamos, “de vista”. Como algum sábio inventou a opção “marcar como não lida”, lá fui eu ler para depois marcar.

“Fulano de Tal ( aqui eu omito o nome para evitar constrangimentos legais posteriores ), estou te esperando para usarmos juntos aqueles óleos. Assinado: Cicrana de Tal ( omito o nome para preservar ...preservar...preservar o que mesmo?! )

Eu e minha pouca experiência não sabíamos o que fazer. Mostrei aquilo pro meu irmão, que riu em amarelo. E eu raciocinava na mesma velocidade de meu acesso discado.

Telefonei. Minhas carnes tremiam de ódio, minhas bochechas explodiriam em instantes. Eis que ele espanca minha inteligência com a resposta “Ah, Anninha, ela é Revendedora da Natura! Será que ela não está querendo vender aqueles óleos de beleza, não?”. Que lhe seja dado o mérito da criatividade.

Contra-ataquei, disse que desconhecia qualquer razão bastante para fazer aquela mulher pensar que ele se interessaria por cosméticos. Ele devolve o argumento com um “pra te dar de presente!”. Neste momento eu lembro de ter achado graça nalguma coisa. Que lhe seja dado o mérito da ousadia.

Lembrei ao rapaz que nem batom uso, que sou a mulher mais desleixada e menos vaidosa dentre todas. E a cidade inteira sabe disso. A Revendedora Natura também. “Não, adorado Fulano de Tal, não acredito que ela tenha pensado em mim escrevendo o e-mail”.

Ele não joga a toalha e pergunta em tom quase infantil se “você acha então que ela está NOS convidando para jantar? Deve estar se referindo àqueles óleos de cozinha. Lembro de ter dito a ela que gostávamos de massa”. Eu quase senti pena. Que lhe seja conferido o mérito da coragem.

Sintam pena de mim, que me forcei a acreditar na desculpa cheia de farrapos, rasgada, emendada, suja, rota, e namorei mais um bom (?!) tempo com o Excelentíssimo Sr. Doutor Fulano de Tal depois disso. Mas que me seja atribuído o mérito da pureza de coração.

12:43 a.m. :: ::
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