Então é Natal
2004-12-19
Colecionava hábitos como substrato da estabilidade que todo capricorniano almeja. Escovar os dentes às oito é mais importante como elemento a me confirmar que nasci a despeito do Sol do que como princípio de higiene básica. Nesta busca pelo ritual, contava os dedos de todos os pés até o dia em que finalmente contabilizei um extra-numérico polidáctil; lia dicionários para alcançar o verbete ideal, quando enfim descobri que apenas uma vogal faz diferença entre luto e manhã para o inglês. Por reflexão nostálgica e prudente, desmantelei meus hábitos – não sem antes considerar o provável transtorno compulsivo como passagem a uma aposentadoria por invalidez desta minha vida de desemprego.
Agora, enquanto observo meu pulso incrivelmente branco e percebo a veia partindo-se em três caminhos, congratulo-me porque ao final de um ciclo dispensei muitos diminutos métodos que burocratizavam minha vida.
Enquanto, assim, observo minha vida simplificada – sendo governista, deveria há muito ter adotado o sistema do cartão de preocupações único e também a unificação de cautelas impostas e taxadas como minhas –, enquanto incidentalmente confesso uma curiosidade súbita sobre os três caminhos das minhas veias, enquanto compasso meu pulsar com o tique-taque-tique-taquicardia, alguns nomes são escritos nas paredes palidamente brancas que me envolvem neste apartamento. As paredes, eu sei, não guardam um branco clássico, o branco mármore, mas um branco de pé de menino, um branco que já limpou mão suja de areia da praia e já apoiou uma velha cansada, um branco que guarda algumas marcas de hidrocor que deveriam ser submetidas ao carbono 14.
Natal é um dia que dura dois; um pro jantar, outro pro almoço – um pequeno hábito das gentes que jamais entendi. E Jesus nasceu há tanto tempo. E eu também. E criamos essa mania de dar parabéns: eu a ele, ele a mim; Idi Amin a ninguém.
E observo minha vida tão simples, tão enxuta, tão pacata, é prejudicada pelo Dezembro, que traz em si tantos minimalismos que seriam mais próprios de um fevereiro, mas aí lá estou eu, discutindo calendário em pleno carnaval - quando todos têm o costume de sair nas avenidas, chocando estes aniversariantes de dezembro -, apegando-me à esta coisa toda que é o dia




