Quase vida
Esquecia o copo de laranjada na cabeceira, consciente de que aquilo lhe traria a companhia discreta das formigas. Gostava de pensar que teria companhia, mesmo que muda, mesmo que surda, mesmo que pequena. Buscava também fantasmas no quarto: criava pessoas nas sombras, transformava em retinas demoníacas as luzes dos poucos carros que ainda transitam àquela hora. Em determinado ponto, contudo, nada que pensasse encheria de vida - mesmo que vida morta - a casa. Em certo momento, o vento parava e o silêncio do mês atípico a enlouquecia. Imaginava, então, os retirantes de julho nas estradas que levam às praias, imaginava as crianças e seus picolés, imaginava os carros de som, os carnavais. Criava assim, neste último recurso criativo, algum ruído na sua imaginação e sentia-se melhor.
Na verdade, era muito desconfortável ser ela. O corpo parecia não lhe ser o mais adequado, a voz deveria ser mais pausada, o nome não lhe servia, sobretudo os dois “enes” soavam exagerados. Nestes instantes em que a tudo faltava uma lógica, um par de razões, ela experimentava a sensação de quase-morte, alcançava o coma e flutuava naquele quarto. De cima, suspensa no ar, contemplava o copo de suco de laranja feito templo pelos insetos, fitava seus cento e sessenta e dois centímetros e dizia, sem voz, "aquilo é só meu corpo". Rejeitando-se tanto, achou sua alma.




