Tema Único: TENTAÇÃO
Andou pelas vias tortas, esteve a três passos do inferno e foi então resgatada pelo desespero cego da velha mãe que de tanto ouvir sobre os milagres da Igreja, julgou ser recurso adequado levar a filha aos templos. E, sim, ela apresentara “melhora” em suas disfunções morais, mas ainda lhe restara um ar de mulher disponível.
É, mulher. Não se tratava de uma lolita. Cantava os hinos com uma voz rouca, mas dengosa. Sentava-se na primeira fila, a melhor visão do púlpito. Curvas formadas e exploradas há tempos, olhar ensurdecedor como aquele que a mãe lança ao filho pequeno e isso basta para detê-lo, boca pintada à vinho tinto, úmida, estranhamente e constantemente úmida. Lascívia gotejando por todos os poros, cada movimento sendo convite por vezes sutil e por outras tantas escancarado a fornicatione. A boca abria-se no mesmo ritmo da cruzada de pernas e do virar do pescoço. Harmoniosamente indecente mesmo calada, uma estrada para todos os vícios e transgressões, um pecado em potência e, completando o cenário de deslumbre, cobria as carnes com um irônico “Jesus é o caminho”.
O pastor andava doente há semanas. Os mais próximos viam naquilo, em verdade, uma interferência divina extremamente forte, quase perturbadora, pois o homem dormia e acordava com a Bíblia a seu lado, uma inquietação terrível, resmungando que precisava de respostas.
Procurou um advogado. Se a Bíblia era normatização, deveria haver brechas que ele apenas com sua hermenêutica religiosa não conseguira alcançar. Dali do púlpito, era dele a melhor visão. As pernas. Legítima defesa. A saia. Estado de necessidade. O encontro e desencontro entre pernas. Exercício regular de direito. O levantar suave da saia. Estrito cumprimento de dever legal. Ela. Ela. Ela. Há de encontrar uma escusa para sucumbir à tentação!




