Writing letters on my wall

A bênção de ser tolo

2004-04-28
Aos seis anos caíram os dentes e ela pensou que era por conta de uma panelada-de-brigadeiro-não-seguida-de-escovação, deliciosamente devorada por seus dentinhos infantis na hora anterior à da queda dramática. Chorou. Sensação gostosa de culpa.

Passava gelo nas costas porque ficar doente rendia preocupação do vô, pânico da vó, histórias mirabolantes no colégio, dispensa da aula de educação física.

Cresceu ouvindo “A Voz do Brasil”, pois o tempo não passa para aqueles que mantêm este hábito. O ruído da transmissão, a ópera que abre o programa e as notícias sempre iguais prendem-na em alguma noite da década de cinqüenta.

Tinha convicção de que Chico Buarque era sua metade de alma, mas como adorava Marieta, cedia-o com gosto, numa generosidade da qual ela própria se orgulhava.

Supôs que o mundo fosse um teatro feito para si, tão novelesca que lhe parecia sua vida, sua escola, sua matemática e sua questão de geografia. Não era egocêntrica; ao contrário, julgava-se indigna de tão extraordinária produção cuidadosamente preparada para ela. Um dia, um pouco adolescente, soube que alguém produzira um filme que contava justo essa coisa de ter a vida filmada secretamente e então teve certeza: isto só podia ser obra de algum subversivo, era uma “indireta”, um “abra os olhos, mocinha, e sorria, pois você está sendo filmada”.

Havia uma bruxa cheirando a súlfur embaixo da sua cama.

Sua cabeça tinha rádio de fábrica, trilha sonora 24 horas por dia.

Suas bonecas usavam modess - inclusive sujo, pois ela cortava o dedinho para tingir com sangue e conferir maior veracidade àquilo ( papel higiênico cortado na medida proporcional à Barbie, fita durex para acabamento das "abas" ).

Forçou-se a ter visão moderna sobre fatos e pessoas, acreditou que fidelidade era coisinha de somenas importância, pensou que em natureza todos somos polígamos, que é mesquinharia cristã pedir que uma pessoa ligue-se a outra com exclusividade.

Em uma década, percebeu quão mágico é ser tolo. Os dentes caíram porque era hora, porque o envelhecimento começa já no parto. Passar gelo nas costas, hoje, só se for por fetiche do marido. Tudo o que ela mais preza é a tranqüilidade dos avós. Odeia ficar doente. Odeia histórias mirabolantes de quem quer que seja. Não há instrumento apto a reter o tempo, a transmissão do “Voz” é deprimente e ela presta mais atenção ao som do carro que emparelha, um cd divino do Coldplay. Chico e Marieta se separaram, ambos devem ter sofrido horrores, Marieta não telefonou agradecendo o empréstimo, Chico não “voltou” para sua dona, nem ao menos lhe fez uma canção. Se sua vida é, de fato, uma superprodução hollywoodiana, eis que chegou a hora da mocinha passar por apuros. Matemática ainda é problema, desta vez nos Cálculos Trabalhistas; geografia é matéria de coração. A bruxa fedida é o chulé do tênis. Deu problema na rádio-cabeça e tudo o que ela escuta é zumbido da cefaléia. Usar modess não é nada lúdico. Fidelidade é importante sim, doeu muito vê-lo com outra.

11:34 p.m. :: ::
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