Writing letters on my wall

Virá Vera

2004-05-08
Ela virá como minha mãe. Ela reconstituirá o umbigo, reviverá ao avesso o que não foi. Trará o gene perdido, corporificará o amor que ainda existe nas gotículas de orvalho das flores desta casa, nas gavetas intocadas do quarto de ninguém, nos retratos descoloridos de personagens ocultos, nos silêncios dos mármores do cemitério.

Virá enrolada em papel crepom, tingida de mim, assustada como passarinho. Virá como agente principal, em que pese ser substituta da melhor voz da ópera antiga. Virá como pequena pitonisa, depois de tudo, antes de mais nada, éter da vida.

Virá povoada de músicas, de alucinações e superações. Virá consagrando a minha existência e a existência de todos os que ele nem viu. Virá e verá meu universo miúdo, minha micro-sociedade, meu cosmos diminuto. E eu serei juíza das querelas infantis, médica de suas dores de barriga, crítica de suas artes e serei também seu sobrenome e seu espelho do futuro.

Virá decompor o passado, repor a história, inaugurar meus vapores, meus órgãos, meu sistema reprodutor e meu sistema solar. Será melhor que eu.

Minha filha é minha mãe.

Feliz dia das mães